domingo, fevereiro 06, 2005

O chofer de aeroplanos

Foto com a cortesia não solicitada do Cinecartaz do Público.Movido pela busca de entretenimento, fui ver o último filme do Scorcese. As minhas expectativas eram baixas — tenho aversão a prémios e a nomeações para prémios e para além disso os Óscares estão no topo da minha lista de embirrações de estimação — o que explica algumas das escolhas que fiz:


  • Fui ver o filme a uma "sala de pipocas" (neste caso a WL do Vasco da Gama);
  • Fui numa data tão próxima da estreia (o filme estreou na Quinta dia 3, fui vê-lo no Sábado dia 5);
  • O próprio filme, que se pode considerar "de grande bilheteira", a julgar pelas quantidades absurdas de publicidade que tem tido.

Quanto à "sala de pipocas" — uma sala onde incidentalmente também costuma estar a passar um filme, que os espectadores podem ou não estar interessados em ver — nada de novo. É só uma questão de se ir mentalizado para apanhar com o cheiro e aquilo até nem corre mal. Neste caso foi até melhor que o habitual: o som estava tão estridente que abafava todo e qualquer ruído proveniente do chafurdar no balde de pipocas e do chuchar da palhinha no copo de refrigerante. (A contrapartida a esta benesse foi sair de lá com os ouvidos dormentes.)


Em relação à proximidade da estreia, foi tão mau como os meus piores receios. A sala repleta de gente que está habituada a ver televisão (aliás, de gente que foi empurrada para aquele filme pela televisão) e que portanto passa o tempo a comentar o filme com o vizinho do lado. (Quando digo "passa o tempo a comentar o filme com o vizinho do lado" estou a ser eufemístico. O que devia dizer, para melhor retratar a situação, seria "passa o tempo a tagarelar com o vizinho do lado, sendo que parte dessas conversas têm início em alguma coisa que se passou no filme".) Mas como ia dizendo, não foi pior do que eu estava à espera. Fiquei a saber que a senhora duas cadeiras ao lado da minha tem um conhecido com as mesmas paranóias do protagonista do filme e ter-me-ia apercebido, caso estivesse distraído, que a dada altura ele estava com a perna engessada. Isto só para dar alguns exemplos. (Já aqui escrevi sobre o mal que a televisão faz ao cinema.) Se tivesse escolhido uma data mais afastada da estreia, mesmo para uma "sala de pipocas" e para ver um "blockbuster" não seria assim, porque o "público televisivo" já teria voltado para a televisão.


Finalmente, o filme. Foi melhor do que estava à espera, embora eu não estivesse convencido de que o filme ia ser mau. O realizador é bom e eu sabia que pelo menos ia ver um filme bem feito. Mas foi ainda melhor que isso. Foi agradável e suepreendente constatar que o "Leo" está mesmo a tornar-se um actor a sério — mais um a provar que se pode ser bonito e bom actor, mas pronto, também lá estava a Cate Blanchett para nos lembrar disso — e até nem concordo muito com as críticas de que ele "envelheceu pouco". O filme retrata dez ou quinze anos da vida do HH e o actor "envelheceu" apenas o necessário. Até nisso está bom...


P.S. O momento mais hilariante de todos foi a chegada, ainda antes do filme começar mas já na fase dos anúncios, de uma família com duas criancinhas. Ambas traziam um balão e uma delas não o recolheu logo. Foi lindo ver as pessoas preocupadas com a ideia de passarem o filme todo com um balão pela frente. Uns riam, outros indignavam-se. Quando finalmente a criancinha começou a recolher o balão, já alguém do "clube dos indignados" se estava a dirigir para lá, para lhe chamar a atenção.


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