Sobre o mal que a televisão faz ao cinema
A possibilidade de ver filmes na televisão tem contribuído em muito para afastar as pessoas das salas de cinema. É a velha luta do "cinema só no cinema" e de como é complicado argumentar com a noite fria e a intempérie contra as pantufas e o conforto do lar. Este fenómeno tem-se tornado ainda mais grave com a generalização dos sistemas de "cinema em casa" e a pressão que o marketing faz para que os adoptemos. Mas há um aspecto muito mais grave nesta questão do, chamemos-lhe assim, "pequeno versus grande ecrã". Trata-se de uma vertente do problema que nunca é abordada por ninguém e que está muito para lá do simples "roubo" de espectadores às salas de cinema.
Para dizer a verdade, eu nem acho que o desvio das pessoas da sala de cinema para a sala de estar seja um problema. Quem acha que ver um filme em casa substitui uma ida ao cinema, é porque não ama o cinema, apenas gosta de ver filmes. Não faz mal a ninguém que essas pessoas os vejam (aos filmes) em casa. Ficam todos contentes e isso é bom. O que eu acho que é um verdadeiro problema é que esse hábito de ver filmes na sala de estar cria uma série de vícios de comportamento, que em casa são inofensivos mas na sala de cinema se tornam altamente perniciosos. Talvez a palavra "vícios" seja forte demais. Devia talvez dizer apenas "comportamentos que adoptamos inconscientemente e que achamos normais". Só para dar alguns exemplos desses vícios: comentar o que se está a passar no filme com a pessoa que está ao nosso lado; não desligar o telemóvel, apenas tirar-lhe o som e passar uma boa parte do tempo e receber e enviar mensagens escritas; comer.
Este tipo de comportamentos que nos habituámos a ter em casa — e que de facto em casa não parecem ter nada de mal — na verdade estragam-nos a capacidade de concentração e dificultam-nos fortemente a tarefa de ver um filme inteiro no cinema, de tal modo nos habituámos a fazer uma pausa para qualquer coisa banal como ir beber um copo de água. Mas quando estamos a ver um filme na nossa sala de estar (ou na de uns amigos), estamos exclusivamente com pessoas que conhecemos e que partilham – em princípio – da nossa postura. No cinema é completamente diferente e é de uma enorme falta de civismo obrigarmos os outros espectadores a lembrarem-se que estão a ver um filme ao nosso lado, devido às nossas atitudes levianas. Estar no cinema não é o mesmo que estar em casa e nunca nos devíamos esquecer disso.

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