sexta-feira, setembro 30, 2005

Calças

Quando chego ao quarto encontro umas calças em cima da cama. Coisa estranha, num quarto de hotel. Dirijo-me para o WC enquanto dou asas à imaginação.




Ao contrário do habitual, a camareira é afinal um homem e chama-se Travassos. Uma das suas perversões secretas é tomar banho nos quartos dos hóspedes. Só que desta vez correu-lhe mal. O gerente, desconfiado, mandou uma segunda camareira para o mesmo piso, para controlar os seus movimentos. Apanhado em flagrante, o Travassos não teve outro remédio senão pôr-se a andar o mais depressa que pôde. Na atrapalhação, ficaram as calças. Não faz sentido, porque a segunda camareira teria limpo o quarto. As calças do Travassos não teriam ficado em cima da minha cama.
A camareira é uma bielo-russa ilegal recém chegada a Portugal, a Petra. Está a ser chantageada pelas máfias de Leste, que lhe levam uma boa parte do fraco salário em troca de não a denunciarem ao SEF. Ao mesmo tempo, o gerente do hotel também a obriga a fazer-lhe favores carnais, a que ela acede por medo de ser denunciada ao SEF. Petra tem um namorado, também ilegal e chantageado pelos mafiosos, o Mishka. Ele não sabe que a Petra se submete às perversões do gerente do hotel, mas um dia resolve fazer-lhe uma surpresa e visitá-la no hotel. Não era bem uma surpresa. Na verdade ia era pedir-lhe dinheiro para dar aos mafiosos. Mishka está há várias semanas sem trabalho, mas os chantagistas não aceitam desculpas. Petra e o gerente são apanhados em flagrante e Mishka não está para explicações, sente-se traído. Não faz nada ao gerente por medo de ser denunciado ao SEF, mas arrasta Petra dali para fora, para acertar contas com ela em privado. O gerente, apavorado, foge dali o mais depressa possível e só vários dias depois é que se atreve a voltar ao hotel. São as suas calças que estão em cima da minha cama. Como é que o Mishka entrou no hotel e foi direitinho ao quarto onde estavam Petra e o gerente? E logo no momento certo? Se isto fosse o argumento de uma telenovela, poderia dizer-se que Mishka tem um amigo no hotel, o João. Foi ele quem lhe facilitou a entrada pela porta de serviço. O que Mishka não sabe, é que o João tem uma paixão secreta pela Petra, que – não foi dito ainda – é lindíssima. Pior que isso, o João nutre um ódio figadal pelo gerente. Odeia-o pelo que ele faz com a Petra e por achar que ele é um incompetente. Ao ajudar Mishka a entrar no hotel, indicando-lhe exactamente onde ela está, o João sabe muito bem o que pretende. A sua esperança é que Mishka os apanhe em flagrante. Destroçado pela traição, matará o gerente, mas como ama Petra, será incapaz de a matar também. Pelo crime que cometeu será preso e deportado. João não só assumirá a gerência do hotel, como terá o caminho livre para finalmente revelar o seu amor por Petra. Resta explicar de onde é que Mishka, um pobre emigrante bielo-russo ilegal (presume-se que acabado de chegar, tal como Petra), conhece o João, um sub-gerente de hotel. Por outro lado, o plano do João tem uma falha grave. É que a prisão de Mishka iria forçosamente fazer aparecer também Petra. Sendo ambos emigrantes ilegais, seriam deportados os dois e não só ele.Imagino todos estes enredos enquanto estou sentado na sanita. Quando volto a olhar para as calças, verifico que elas têm um aspecto familiar. Serão minhas? Devem ser, porque eu não trago calças vestidas. Deixei-as naquele sítio quando cheguei ao quarto pela primeira vez, uma hora antes, e troquei de roupa. Acabei de chegar do ginásio e estou de calções. Talvez a camareira seja mulher e portuguesa, afinal de contas.

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