quarta-feira, agosto 10, 2005

Boas notícias

Um título no Público "on-line" de hoje:
"Governo acaba com subsídios a associações para campanhas de prevenção rodoviária".


Assim de repente, e sem ter muito mais informação sobre o assunto, parecem-me excelentes notícias. Sem entrar em questões de princípio sobre subsídios do Estado (isso é outro assunto), parece-me uma óptima ideia acabar de vez com o gasto de "tax money" em campanhas de prevenção rodoviária, pela simples razão de que elas são totalmente inúteis. Se eu não ando a mais de 120 na auto-estrada, não é porque vi um anúncio parolo na televisão a dizer-me para não o fazer. Dah! Acordem para a vida!


Eu andava desde há bastante tempo para escrever aqui sobre este assunto, mas por uma razão ou outra, ia sempre ficando para trás. Esta pequena notícia foi o catalizador e aqui está o que eu acho.


As campanhas de prevenção rodoviária não podem nada contra uma máquina publicitária gigantesca que se movimenta em torno da ideia de que precisamos de ter um carro muito potente e de que quantos mais cavalos um carro tiver, melhor. E essa máquina publicitária gigantesca, atenta como está às tendências da sociedade (ela vive disso e não dos subsídios do Estado, por isso faz o "trabalho de casa") já começou a incorporar nas suas mensagens a preocupação com a segurança. As pessoas devem optar pelo modelo X da marca Y, porque foi o único do segmento com a cotação máxima do organismo tal, que regulamenta os níveis de segurança dos automóveis. Isso garante-lhes (está implícito) que podem continuar a andar à maluca porque com um carro assim tão seguro não vai haver problemas: ele trava tão bem, é tão estável e adere tão bem à estrada, que é impossível algo correr mal. E se mesmo assim bater (ou lhe baterem) as barras de protecção lateral, o múltiplo airbag, o reforço do habitáculo e os seus sistemas inovadores de absorção do choque garantem que todos os passageiros saem ilesos.
As campanhas de prevenção rodoviária não podem nada contra uma população inteira de pessoas que acredita mesmo nisto.

Na minha opinião, a "prevenção rodoviária" (leia-se "acções que podem levar a que o nível médio das asneiras ao volante e que a sinistralidade rodoviária diminuam") talvez devesse passar por medidas altamente impopulares como:
>> Introduzir a figura de "inibição vitalícia de conduzir" (quantas vezes á preciso ser-se apanhado a conduzir bêbado para ficar demonstrado que não se está apto a conduzir de todo?);
>> Limitar os mecanismos de segurança existentes nos automóveis (acelerar no molhado não faz mal, porque o ABS resolve...);
>> Introduzir o conceito de "pessoa inapta para a condução" (tantas vezes vais ao exame de condução que acabas por os vencer pelo cansaço...).

Isto são só umas ideias soltas, que obviamente careceriam de melhor avaliação, caso alguém tivesse a coragem de pensar em as pôr em prática.

Ah, e mais outra coisa: é preciso lutar para acabar com o sentimento de impunidade na estrada. Não serve de grande coisa anunciar multas muito mais pessadas e depois não haver ninguém a aplicá-las. As pessoas andam "na linha" uns tempos, mas depois o sentimento de impunidade volta, porque a prática demonstra que a probabilidade de se ser efectivamente multado é ínfima. Mais valia terem-se multas muito mais baixas (cinco contos em vez de cinquenta), mas ser-se verdadeiramente duro com as infracções. Se fosse do senso comum que "se te esticas apanhas, mas apanhas mesmo", o pessoal não se esticava.

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