terça-feira, maio 17, 2005

Afogado em prestações?

"Junte as suas prestações numa só e poupe até 40% todos os meses", é o que nos promete o anúncio. Parece bom demais para ser verdade? Mais ou menos.

Tanto quanto consegui perceber do site (www.capitalmais.pt) a ideia base é contratir um empréstimo nas condições do crédito à habitação, mas que vai servir para cobrir todas as prestações que a pessoa tiver. Como as taxas praticadas no crédito à habitação são muito mais baixas do que as do crédito pessoal (carro, móveis, televisão, férias, etc), segue-se que o valor total a pagar é muito menor que o somatório das prestações individualmente. Até 40% mais baixo, segundo a anúncio.

O que as letras pequenas no rodapé propõem é um crédito à habitação a 30 anos com um "spread" de 2% - uma enormidade, para quem não está por dentro do assunto, há aí bancos a propor valores que chegam a ser abaixo dos 0,5%! - mas pronto, isto é o exemplo que lá aparece e as condições talvez dependam de cada caso em particular.

O que as letras pequenas no rodapé não explicam - mas que deve ser qualquer coisa assim, porque não há milagres - é que isto pressupõe que a casa própria que a pessoa está a pagar já vale mais do que o capital em actualmente dívida e portanto pode-se contrair novo empréstimo, no novo valor da casa, liquidando todos ou outros incluindo o da habitação.

Imaginemos um eu fictício: Há uns anitos, comprei uma casa de 20kcts, que agora seria facilmente avaliada em 30kcts e de cujo empréstimo ainda me faltam pagar 17kcts. Para além disso, comprei carro e móveis e "home cinema" e fui para as Caraíbas, tudo pago a prestações, das quais ainda devo 5kcts ao banco. Só que esta dívida dos 5kcts está a ser paga com um juro de, digamos, 12% ao ano, contra os 3,5% ou 4% que podia ser se, fosse de crédito à habitação e não ao consumo. Como a minha dívida total é de 22kcts e a minha casa vale 30kcts, o que estes senhores me propõem é pedir-lhes 22kcts, liquidar as dívidas todas e ficar-lhes a pagar a eles, com juros de habitação e não de consumo.

Giro. Nos EUA já se faz isso há muitos anos, por cá, pelos vistos é "inovador". (Se não contarmos com os casos comuns de gente que pede dinheiro para a casa e pede logo mais "uns pózinhos" para os móveis - ou para a lua-de-mel...) Enfim, se eu chegasse ao meu banco a propor-lhes um esquema destes eles talvez achassem estranho, mas à parte isso nada impede o cidadão comum de aproveitar a valorização do seu imóvel para se aliviar de dívidas. E depois, com o dinheiro extra que passa a estar disponível ao fim do mês, já dá para comprar um carro melhor, ou fazer uma renovação aos móveis, ou comprar um ecrã de plasma ou fazer mais umas férias inesquecíveis, desta vez na Polinésia Francesa...

1 comentário:

Anónimo disse...

Ó Amigo Faustino... achei o teu comentário muito interessante.
No entanto acho que te esqueceste de colocar uma coisa, quando te referias às letrinhas pequeninas...: a Comissão de Liquidação.
Ah pois é!!
Se tu pagas um crédito antecipadamente, também tens esse ónus. E não é nada pequeno...!
Tudo depende dos valores em dívida e do contrato inicial com o banco.
Essa é mais uma daquelas "alíneas" de que ninguém se lembra... só quando tem de desembolsar a "guita".

Silvia